A Mesquita de Kasım Ağa em Istambul — um segredo bizantino na sexta colina de Constantinopla
A Mesquita de Kasim Aga (Kasımağa Mescidi, também conhecida como Kâsım Bey Mescidi) — um monumento minúsculo, mas surpreendente, no bairro de Fatih, escondido num pátio verdejante entre os bairros modernos de Salmatomruk. Aqui, a apenas cem metros das ruínas da Odağlar Cami e a dois passos da famosa Kariye, as antigas paredes bizantinas de tijolo e pedra encontram-se com o imponente minarete otomano. A Mesquita Kasım Ağa é um caso raro em que os turistas de Istambul passam por ela sem suspeitar que têm diante de si um edifício com quase mil anos de história: inicialmente, provavelmente, uma capela do mosteiro da época dos imperadores bizantinos, depois — uma pequena mesquita-mecid, fundada em 1506 pelo waqf de Kasim Bey bin Abdullah, durante o reinado do sultão Bayezid II. Externamente discreta, ela guarda em si, camada por camada, toda a história da sexta colina de Constantinopla.
História e origem da Mesquita de Kasim Aga
A data exata da construção do edifício original continua a ser um mistério. Nem as medições realizadas durante a última restauração, nem as fontes escritas medievais dão uma resposta inequívoca sobre a quem e para que finalidade esta pequena construção foi dedicada na época bizantina. Os estudiosos sugerem, com cautela, que a mesquita fazia parte de um grande complexo monástico, cuja igreja principal era o edifício conhecido pelos otomanos como Odalar-Cami. A dedicação desta igreja vizinha também é desconhecida, e o mistério estende-se por ambos os lados do bairro.
Os arqueólogos têm a certeza apenas de uma coisa: o abastecimento de água do complexo provinha da cisterna vizinha de Ipek — um reservatório subterrâneo bizantino que, na época otomana, se transformou numa oficina de fiação de seda e recebeu o apelido de Ipek Bodrum, «Cave da Seda». Na altura da queda de Constantinopla, em 1453, o edifício já estava em ruínas: o bairro bizantino vivia há muito a sua vida tranquila, e das construções do mosteiro restavam apenas as paredes.
Após a conquista da cidade pelos otomanos, a zona em torno da futura mesquita foi colonizada principalmente por uma população cristã. É por isso que é ainda mais surpreendente que, em 1506, durante o reinado do sultão Bayezid II, um waqf piedoso, instituído por Kasim Bey bin Abdullah — possivelmente, na época, um smenbashi, ou seja, o chefe do corpo dos janízaros — tenha construído uma pequena mesquita sobre as ruínas. O waqf dotou-a de várias lojas, parcelas de terra e da própria cisterna Ipek Bodrum, cujas receitas deveriam sustentar a comunidade.
O destino posterior da mesquita revelou-se dramático. Um forte terramoto em 1894, que abalou toda a Istambul, destruiu a abóbada e as paredes. O golpe final foi desferido pelo incêndio de Salmatomruk, em 2 de julho de 1919: após este, apenas as paredes perimetrais e a base do minarete sobreviveram. A partir de meados do século XX, o edifício abandonado transformou-se numa «geje-kondu», um barracão habitacional construído sem autorização. Só na década de 1970 foi realizada uma restauração completa, após a qual a mesquita reabriu para as orações e permanece assim até aos dias de hoje.
Se tentarmos resumir esta biografia numa única linha, obtemos um enredo surpreendentemente russo no seu espírito: capela monástica bizantina — mesquita otomana-waqf — terreno baldio abandonado — construção ilegal — monumento restaurado. Muitas igrejas provinciais passaram por um destino semelhante no nosso país, pelo que o viajante de língua russa Kasym Aga se identifica particularmente com esta história: não se trata da imponente Hagia Sofia, mas sim de uma história «paroquial» discreta sobre como a pedra sobrevive às pessoas.
Arquitetura e o que ver
As dimensões do edifício são modestas e, em comparação com as grandiosas igrejas otomanas, parece quase uma miniatura. No entanto, foi precisamente esta compacticidade que lhe permitiu sobreviver aos séculos: menor massa — menos danos em caso de terramotos. A mesquita atual tem uma planta quadrada, orientada de nordeste para sudoeste. O seu antecessor bizantino também era aproximadamente quadrado: um espaço de nave única com um átrio a nordeste e uma pequena sala saliente no lado leste.
Camada bizantina: tijolo, pedra e função controversa
A análise da alvenaria durante a restauração revelou várias fases de construção. As fundações e as paredes preservadas são constituídas por fileiras alternadas de tijolo e pedra talhada — uma técnica reconhecível da arquitetura bizantina tardia de Constantinopla. Devido às dimensões minúsculas, os investigadores recusam-se a considerar o edifício original como uma igreja de pleno direito: é mais provável que se trate de uma construção auxiliar do mosteiro — um paraclísio, uma capela funerária ou um edifício de serviço para a comunidade monástica. Esta controvérsia continua, e cada nova análise da alvenaria acrescenta argumentos ora a um lado, ora ao outro.
A transformação otomana de 1506
Quando o waqf de Kasim Bey assumiu o controlo do edifício em ruínas, os mestres de 1506 tomaram várias decisões importantes. O átrio a nordeste foi totalmente desmontado e reconstruído para se integrar na lógica da sala de oração. A parede do mihrab — a mesma nicho que indica a direção de Meca — teve de ser reconstruída do zero, porque a orientação bizantina da abside não coincidia com a qibla. Simultaneamente, foi acrescentado ao edifício, a partir do nordeste, um minarete imponente, que ainda hoje é visível no bairro; a sua base sobreviveu tanto ao terramoto de 1894 como ao incêndio de 1919.
O que o viajante verá no interior
O interior contemporâneo é sóbrio e tranquilo: paredes caiadas, piso de madeira, tapetes simples, mihrab, minbar, balcão feminino. No interior não há nem as pinturas murales descascadas de Kariye, nem os azulejos luxuosos de Iznik, como em Rustem-paşa. Mas, se olhar com atenção, verá fragmentos de tijolo antigo na alvenaria, diferenças de nível onde o novo se junta ao antigo e a característica combinação «patchwork» de materiais — um diálogo entre dois impérios que já dura há mais de quinhentos anos.
Pátio exterior e contexto do bairro
A mesquita ergue-se num pequeno jardim com árvores entre as ruas Koza Sokak e Kasim Odalar Sokak. Este recanto verde contrasta com a densa urbanização de Salmatmruk: à volta, há blocos de habitação comuns, e raramente um turista fica aqui mais de cinco minutos. Entretanto, é precisamente a partir deste pátio que se consegue abranger com o olhar várias épocas de uma só vez: as ruínas da Odaalar-Cami, a cem metros a sudoeste, a antiga cisterna de Aecia, transformada num campo de futebol, e o misterioso «Palácio de Bogdan» (Boğdan Saray) na mesma esplanada.
Minarete: o principal destaque otomano
O minarete, erguido em 1506 no lado nordeste, merece uma atenção especial. Para uma mesquita tão pequena, parece quase desproporcionalmente imponente e, na verdade, é ele que salva o edifício de perder a sua identidade: do lado da rua Kasym Aga, a mesquita é reconhecida, acima de tudo, por este pilar esguio. Após o incêndio de 1919, apenas a base sobreviveu; a parte superior foi restaurada na década de 1970, seguindo o modelo dos minaretes otomanos típicos de escala provincial. Trata-se de um caso raro em que uma «reconstrução» do século XX reproduz fielmente a lógica medieval, sem tentar embelezá-la.
Factos e lendas interessantes
- A sexta colina de Constantinopla, onde se ergue a mesquita, era, na época bizantina, uma zona periférica com mosteiros e cisternas. Kasim Aga encontrou-se literalmente rodeado de água: a cisterna aberta de Aécio transformou-se hoje num campo de futebol local, enquanto Ipek Bodrum continua escondida sob o bairro.
- O nome de Kasim Bey bin Abdullah é acompanhado nas fontes pelo título de smenbashi — «chefe do corpo de smen», ou seja, comandante militar responsável por uma parte do exército janízaro. É surpreendente que da sua carreira terrena tenham restado apenas esta mesquita e menções nos arquivos dos waqfs.
- A cisterna Ipek Bodrum ganhou o apelido de «Cave de Seda», porque na época otomana o espaçoso local subterrâneo era utilizado como oficina de fiação de seda: os artesãos fiavam os fios na penumbra fresca do reservatório bizantino.
- Em meados do século XX, o edifício era oficialmente considerado um «geje-kondu» — uma habitação ilegal «construída numa noite». Este é um fenómeno típico de Istambul dos anos 50 e 60: a antiga mesquita foi transformada num simples barracão para uma família pobre, e a sua história foi esquecida durante quase vinte anos.
- A vizinha Odaalar-Cami, provavelmente a igreja «mãe» do mosteiro, foi destruída ainda antes e hoje encontra-se em ruínas — a mesquita de Kasım Ağa sobreviveu à sua «irmã mais velha» apenas graças à restauração da década de 1970.
Como chegar
A mesquita situa-se no bairro de Fatih, na mahalle de Salmatomruk, perto do portão de Edirnekapı — os antigos portões de Harisium das muralhas de Teodósio. O trajeto mais conveniente é de elétrico T4, que chega até à paragem de Edirnekapı. A partir daí, a pé pelas ruelas estreitas até ao Museu Chora — cerca de 10 a 12 minutos. A Kasim Aga situa-se aproximadamente a meio caminho entre a Fethiye Cami (antiga igreja de Santa Maria Pammakarista) e a Chora, sendo conveniente incluir ambos os locais vizinhos num único percurso.
Se vier de Sultanahmet, apanhe o elétrico T1 até Eminönü e, depois, o autocarro 36CE ou 87 até Edirnekapı. A partir do aeroporto IST, o mais prático é apanhar o metro M11 até Kağıthane, depois o M7 até Mecidiyeköy e, por fim, o autocarro. É difícil estacionar neste bairro: as ruas são estreitas e há poucos lugares de estacionamento. Oriente-se pelo Google Maps até «Kasımağa Mescidi» — coordenadas 41.029, 28.939, entre Koza Sokak e Kasim Odalar Sokak.
Dicas para o viajante
A melhor altura para visitar é no final da primavera (abril–maio) e no início do outono (setembro–outubro). No verão, o bairro de Salmatomruk fica escaldante, há pouca sombra, e no inverno as ruelas estreitas ficam escorregadias depois da chuva. As horas da manhã são preferíveis: há menos fiéis, a luz é suave sobre os tijolos antigos e o ambiente é tranquilo. Reserve cerca de 20 a 30 minutos para a mesquita — isso é suficiente para dar a volta no pátio, observar a alvenaria e dar uma espreitadela no interior entre as orações.
Lembre-se de que esta é uma mesquita em funcionamento, e não um museu. Tira-se o calçado à entrada; as mulheres precisam de um lenço e de roupa que cubra os ombros e os joelhos; os homens não devem entrar de calções. Durante as cinco orações diárias, é mais sensato os turistas esperarem quinze a vinte minutos na rua. A comunidade local é pequena e acolhedora, mas não gosta de barulho nem de flashes. É possível fotografar livremente no exterior; no interior, deve-se fazê-lo em silêncio e sem flash, pedindo permissão com o olhar ao imã.
Inclua a Mesquita de Kasim Aga num percurso com os locais vizinhos: em duas horas é possível percorrer a pé a Mesquita de Kariye, com os seus famosos mosaicos e afrescos, a Fethiye-Cami com os mosaicos paracletários do final do período bizantino, os vestígios da Odalar-Cami e subir até às muralhas de Teodósio, junto a Edirnekapı. Este bairro é um verdadeiro laboratório para quem gosta da Istambul «em camadas», onde o tijolo bizantino convive com o minarete otomano e os blocos de habitação modernos. Leve água, calçado confortável para o pavimento de paralelepípedos e um bloco de notas — aqui apetece-se tomar notas.
Se não é a sua primeira vez em Istambul e já viu a Hagia Sofia, a Mesquita Azul e a Mesquita de Solimão, o percurso pela sexta colina será o «segundo andar» lógico do seu conhecimento da cidade. Kasım Ağa mostra a arquitetura otomana não de forma pomposa, mas sim no seu quotidiano, sem dourados nem multidões — e é nessa simplicidade que se revela o principal encanto de Istambul. Algumas horas entre Edirnekapı e Balat transformam-se facilmente no dia mais memorável da viagem.
Se planeia uma imersão profunda, peça ao guia para o conduzir ao longo da linha da sexta colina: da cisterna de Aetius, passando por Kasım Ağa e Odalar, até Kariye e às muralhas — este é um percurso raro, para o qual as excursões em massa não costumam ir. Bónus gastronómico — depois do passeio, desça até Balat ou Fener para jantar num dos restaurantes familiares com vista para o Corno de Ouro. A Mesquita de Kasım Ağa não é um ponto principal dos guias turísticos convencionais, mas são precisamente estes monumentos tranquilos que fazem de Istambul uma cidade à qual se regressa não pelas atrações turísticas, mas pela compreensão.